A esquerda achava que os jovens eram dela... Errou
21/10/2026 às 21:18 Opinião
Não foi rebeldia. Os jovens conferiram o que a esquerda prometeu e o que entregou, e a conta não fechou.
Por que os jovens estão trocando a esquerda pela direita?
Em 4 de outubro, os dois deputados federais mais votados do país foram jovens de direita.
Nikolas Ferreira (PL-MG) teve 3.119.318 votos, e Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, teve 3.038.438. Em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, recebeu 1.956.238 votos para deputada estadual. No Espírito Santo, Lucas Polese (PL) bateu o recorde do estado para deputado federal.
Esses votos não surgiram do nada. Em março, a AtlasIntel registrou 72,7% de desaprovação a Lula entre jovens de 16 a 24 anos, a maior entre todas as faixas de idade. O Datafolha mostra a mudança: em agosto de 2022, Lula tinha 51% das intenções de voto nessa faixa, contra 28% de Bolsonaro. Em abril de 2026, tinha 42%, contra 31% de Flávio Bolsonaro.
É comum atribuir a virada à rebeldia típica da juventude. Ela existe, mas não explica o salto. O que explica é a experiência: essa geração viu de perto o que a esquerda prometeu e o que entregou.
Primeiro, o bolso. Em agosto de 2024, passou a valer o imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”. A medida atingiu em cheio o jovem que compra roupa e acessório pela internet. Em março de 2026, a AtlasIntel apontou que 62% dos brasileiros a consideravam o maior erro do governo, com rejeição ainda maior entre os mais jovens. Em 13 de maio, a cinco meses da eleição, Lula revogou a taxa que ele mesmo havia sancionado. Na mesma pesquisa, a tentativa de ampliar a fiscalização sobre o Pix foi reprovada por 59%. O jovem aprendeu que a política econômica mudava conforme o calendário eleitoral.
Segundo, o discurso envelhecido. O presidente da AtlasIntel, Andrei Roman, resumiu o problema ao dizer que Lula 3 é um governo que não se reinventou, preso ao discurso de mais de uma década atrás. Para quem tinha 8 anos quando Lula deixou o poder pela primeira vez, as promessas de 2002 não são memória afetiva. São promessas que ainda não se cumpriram.
Terceiro, as pautas. A esquerda insiste em bandeiras que boa parte dessa geração rejeita.
Na pesquisa Juventudes, da Fundação Friedrich Ebert e do YouGov (2025), só 33% dos jovens de 15 a 35 anos apoiam a legalização do aborto, enquanto 51% são contra. Quando um partido trata como consenso o que o eleitor jovem rejeita, não deveria se surpreender ao perdê-lo.
A internet completou o quadro. Hoje, o jovem confere promessa e resultado sozinho, no celular, e encontra políticos da própria idade dizendo o que ele já pensava.
A objeção mais forte vem dos números. Lula ainda lidera entre os jovens no Datafolha, e a pesquisa Genial/Quaest indica que as mulheres da Geração Z são o único grupo majoritariamente progressista do país. A juventude, portanto, não virou um bloco conservador.
É verdade, e isso reforça a tese. Se fosse só rebeldia, ela atingiria a geração inteira por igual.
O que os dados mostram é uma rejeição concentrada em medidas e pautas específicas, e uma vantagem que encolheu para menos da metade em quatro anos.
O jovem não virou à direita por impulso. Fez as contas. E qualquer contador sabe: conta que não fecha não se resolve com discurso.
Renato Codeco
Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.