Calaram o vídeo de Nikolas, mas as promessas continuam falando

O vídeo de Nikolas Ferreira com nordestinos perdeu o som em horas. A água, o esgoto, a segurança e a picanha prometidos continuam sem chegar

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Por que um vídeo com cinco moradores do sertão incomodou tanto?

Em 20 de outubro, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo com depoimentos de cinco moradores de Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. Eles falavam de serviços básicos que não chegam e do custo de vida que sobe. A legenda dizia: “O Nordeste que foi esquecido”. Às 18h daquele dia, o vídeo somava 83,8 milhões de visualizações no Instagram. Depois, passou de 100 milhões.

Então o vídeo ficou mudo. A Meta informou que retirou o áudio por um pedido de direitos

autorais sobre a música de fundo, “Grão de Areia”, de Rubel com Xande de Pilares. Não disse quem fez o pedido. Nikolas atribui a iniciativa a Rubel, apoiador declarado de Lula.

Seus apoiadores falam em censura.

Se houve censura, é discutível. Pela lei, quem decide sobre o uso de uma música em material de campanha é o autor. Mas o símbolo é inevitável: nordestinos que reclamavam de esquecimento perderam a voz. E suas queixas não falam de grandes obras. Falam do dia a dia.

Comece pela torneira. Segundo estudo da GO Associados com o Instituto Trata Brasil, a parcela de nordestinos com abastecimento de água caiu de 74,9% em 2020 para 73,7% em 2024. Só 35,9% têm coleta de esgoto. Ou seja, quase dois em cada três moradores da região vivem sem esgoto coletado.

Depois, a segurança. A Bahia, onde o vídeo foi gravado, é governada pelo PT desde 2007, com Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. Segundo o Atlas da Violência, em 2022 o estado teve a maior taxa de homicídios do país: 45,1 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, de 21,7.

Por fim, o prato. Na campanha de 2022, Lula disse no Jornal Nacional que o brasileiro precisava voltar a comer picanha. Virou promessa. Em 2024, a carne subiu 20,8%, segundo o IPCA. Em junho de 2026, o quilo da picanha no atacado custava R$ 72,38, mais que os R$ 54,33 que um trabalhador de salário mínimo ganha por dia. Não por acaso, em abril de 2025, a Genial/Quaest registrou que 71% dos brasileiros achavam que Lula não vinha cumprindo o que prometeu.

A objeção mais forte é que água, esgoto e polícia são, em boa parte, responsabilidade de estados e municípios, não do presidente. E o Nordeste continua sendo a região que mais aprova Lula.

Em muitos estados, o argumento vale. Na Bahia, não. Ali o PT governa o estado há quase duas décadas e esteve na Presidência na maior parte desse período. Não há a quem terceirizar a culpa. E a picanha foi promessa do próprio Lula. É por isso que o vídeo incomodou: ele deu rosto a nordestinos que não se sentem atendidos, justamente no maior reduto eleitoral do presidente.

Calar um vídeo é fácil: basta um pedido de direitos autorais. Difícil é calar a torneira vazia, o esgoto a céu aberto e o preço da carne.

Foto de Renato Codeco

Renato Codeco

Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.

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