Roberta, uma mulher assombrada (veja o vídeo)

Ler na área do assinante

"Um mau caráter, um canalha, um covarde": com essas palavras, repetidas várias vezes ao longo de uma entrevista de aproximadamente uma hora à CNN, Roberta Luchsinger qualificou o presidente da República - que, por casualidade, é Lula. Mas ela não se restringiu a adjetivá-lo.

Ela avançou.

"Um homem desses não pode continuar na presidência de um país. Ele mente em coisa pequena, ele mente em coisa grande, ele mente o tempo inteiro. E isso me dói falar, porque eu já acreditei muito nele, defendi muito ele, o tempo inteiro. Lutei muito por ele. Quando ele inclusive estava preso e eu acreditava na inocência dele, fui das poucas pessoas que se expôs de maneira pública e notória na defesa dele. (...)
E o que foi que eu recebi em troca? Nem um 'muito obrigado'".

Contou que ela e Lulinha moravam juntos em Brasília, que ministros do governo frequentavam a casa, que Lulinha costumava ter reuniões a portas fechadas com eles, inclusive com Amauri Pinha, vizinho e amigo dele, o representante no Brasil da Mota-Engil, construtora portuguesa que tem contratos bilionários com o governo. Porém, algumas lacunas no que ela falou gritaram mais alto do que a literalidade das palavras.

"Em todo lugar que eu frequentei na minha vida, Brasília, independente do governo que fosse, eles sabem exatamente onde eu entrei, hora que eu entrei, com quem eu falei (...). Vários personagens envolvidos com Lula, com Lulinha, com todo mundo, o único personagem que todo mundo vai atrás sou eu. (...) Quantas vezes [o representante da Mota-Engil] entrou no Palácio do Planalto, entrou no DNIT, entrou na PETROBRAS, entrou nos órgãos?"

Hoje ela é investigada pela polícia federal no caso das fraudes do INSS (com Lulinha), está submetida a medidas cautelares, tem bens bloqueados e se sente abandonada por seus parceiros de negócio.

Há duas perguntas no ar. Para que fim Roberta quis dar essa entrevista?

E por que Lula não ajuizará contra ela por injúria, calúnia e difamação?

Sabendo ser vista por todo o país, ela revelou um quadro: uma mulher sem defesa, que virou um estorvo para quem tem muito poder de ataque. Disse:

"Qualquer coisa que acontecer comigo ou com as minhas filhas vai ter a digital do presidente da República (...), que, se eu não defender a minha integridade e a das minhas filhas, ninguém vai defender."

Ela não o disse, ninguém fala nisso, mas fato é que o fantasma de Celso Daniel segue advertindo quem quer que se meta com um poder cujos cordéis são invisíveis e puxados por mãos igualmente invisíveis: visível só o mal que ele produz. Entende-se a finalidade de Roberta na entrevista.

Mas há a segunda questão: Lula não vai ajuizar contra ela? Não. Por quê?

Em 2022, Lula ajuizou contra o padre Edison Geraldo Bovo, da paróquia de São Roque, em Laranjal Paulista. O sacerdote, no púlpito, chamara-o de "O maior ladrão que o mundo já viu". E Lula já havia processado vários jornalistas e as revistas Veja e IstoÉ. Também já havia processado o promotor de justiça Cassio Roberto Conserino (MP-SP), o procurador da República Deltan Dallagnol (coordenador da Lava Jato), o delegado Igor de Paula (PF, Lava Jato) e até o juiz Sergio Moro - processos que não implicavam risco e que ele perdeu todos.

Porém, Lula nunca processou o ex-delegado de polícia Romeu Tuma Junior, que publicou o livro "Assassinato de reputações - um crime de Estado" (ed. Topbooks, 2013), que trás um capítulo intitulado "Lula: alcaguete e aprendiz do DOPS", com detalhes da atuação de Lula como informante da polícia, seu jogo duplo traindo o pessoal do sindicato e os favores que, pasmem, fazia aos patrões.

O jornalista Cláudio Humberto (Diário do Poder, 15/09/2017) questionou por que Lula não processava Emílio e Marcelo Odebrecht, que declararam tê-lo subornado com um pacote de propinas (estando Lula na presidência).

Ele não processou Romeu Tuma Junior nem Emílio e Marcelo Odebrecht pelo mesmo motivo por que poupou José Nêumanne Pinto, autor de "O que Sei de Lula" (Topbooks, Rio de Janeiro), obra com a mais demolidora descrição de uma biografia. Tuma, Odebrecht, Nêumanne: eles sabem demais.

E chegamos a Roberta Luchsinger. Ela não quer o destino de Celso Daniel. Nem o de Marcos Valério (que lembrança). E a entrevista foi para mostrar que sabe muito e que é melhor, para seus novos inimigos, protegê-la em vez de prejudicá-la, que ela não vai cair sozinha, que se dispõe a fazer uma "delação premiada" e que qualquer violência contra ela vai ter a "digital" de quem, para ela, é "um mau caráter, um canalha, um covarde".

Assista à íntegra da entrevista aqui:

Renato Sant'Ana

Advogado e psicólogo. E-mail do autor: sentinela.rs@uol.com.br

Ler comentários e comentar
Ler comentários e comentar

Nossas redes sociais

Facebook

Siga nossa página

Seguir página

Twitter

Siga-nos no Twitter

Seguir

YouTube

Inscreva-se no nosso canal

Inscrever-se

Instagram

Siga-nos no Instagram

Seguir

Telegram

Receba as notícias do dia no Telegram

Entrar no canal

Rumble

Inscreva-se no nosso canal

Inscrever-se

Gettr

Siga-nos no Gettr

Seguir

Truth

Siga-nos no Truth

Seguir