
A dignidade do trabalhador e o fosso da esquerda: O pobre não pediu tutor. Pediu para trabalhar em paz

24/10/2026 às 16:20 Opinião

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Por que o trabalhador brasileiro está virando as costas para quem jura defendê-lo?
A resposta não está nos livros que a esquerda lê. Está na rua. Segundo o Datafolha, seis em cada dez brasileiros preferem trabalhar por conta própria a ter carteira assinada. Entre os jovens, quase sete em cada dez. Não é rebeldia. É gente que quer ser dona do próprio destino.
Pense na manicure que conquistou a clientela uma a uma, ou no motorista de aplicativo que decide a que horas sai de casa. Para eles, liberdade não é verbete de sociologia: é ferramenta de trabalho.
Em coluna de 8 de outubro, o filósofo Luiz Felipe Pondé resumiu: a dignidade do trabalhador está em ganhar a própria renda e mandar na própria vida. E deixou um recado aos progressistas: “desçam do salto alto”.
A esquerda não desce. Desde Marx, ela enxerga o mundo dividido entre oprimidos e opressores. Nesse roteiro, o pobre tem papel fixo: vítima. E vítima não escolhe; espera. Por isso, quando o pobre vota na direita, o diagnóstico da esquerda de gabinete já vem pronto: foi enganado, não sabe o que faz. É mais fácil xingar o eleitor do que reescrever o roteiro. A esquerda ama o pobre, desde que ele continue pobre e agradecido.
Na fé, aconteceu o mesmo. Hoje, um em cada quatro brasileiros é evangélico. Em 2016, frei Betto, que ninguém acusará de simpatia pela direita, registrou uma frase que circulava entre os próprios católicos: a Igreja fez a opção pelos pobres, e os pobres fizeram a opção pelos evangélicos. O povo foi atrás de quem fala de trabalho, família e prosperidade. A esquerda ficou com a teoria. O povo ficou com o futuro.
Esse trabalhador sabe uma coisa que muito doutor esquece: o Estado não produz nada. Cada real que o governo gasta saiu do suor de alguém, muitas vezes da própria manicure e do próprio motorista.
Dirão que o pobre também precisa do Estado. Precisa, e eu concordo. Milhões de famílias dependem do Bolsa Família, e o próprio Pondé reconhece que o programa é essencial para muitas delas. Também defendo amparo para quem não tem como competir: o pobre, o doente, o idoso, a criança em desvantagem. Por isso apoio a cota social, pela renda, e não pela cor ou pelo gênero. A diferença está no objetivo. Amparo bom é trampolim: ajuda a pessoa a ficar de pé e seguir sozinha. Amparo ruim vira cerca. E, para muita gente na esquerda, o sucesso de um programa se mede por quantos entram, não por quantos saem.
A manicure e o motorista não pedem para ser salvos. Pedem para ser deixados trabalhar: imposto que não sufoque, regra que não mude todo ano, escola que ensine o filho a ler e a fazer conta. O fosso entre a esquerda e o trabalhador não foi cavado pelo pobre. Foi cavado por quem, em vez de ouvi-lo, preferiu explicá-lo. Resta saber se a esquerda vai descer do salto ou continuar falando sozinha.
Renato Codeco
Contador e licenciado em matemática, com MBA em Finanças, Auditoria e Controladoria pela FGV, e escreve sobre tributação, contas públicas e instituições.












