
O direito de pensar, a obrigação de concordar: a censura disfarçada de opinião

26/10/2026 às 11:09 Opinião

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Quando a polarização transforma divergências em rompimentos, o diálogo em confronto e a liberdade de pensar em uma disputa pelo direito de ter razão.
Há algo muito triste acontecendo na nossa sociedade: deixamos que a política ultrapassasse as urnas e invadisse nossos afetos.
Pais e filhos se afastaram, amizades foram desfeitas e famílias passaram a evitar conversas por medo de discordar. Nas redes sociais, vimos pessoas trocarem argumentos por palavrões, ofensas e ataques pessoais. Mais grave ainda, houve quem desejasse a morte e ameaçasse de morte alguém simplesmente por pensar diferente.
Desde quando uma opinião vale mais do que uma vida? Em que momento deixamos de enxergar o ser humano por trás de uma tela?
Defender nossas convicções é um direito. Humilhar, intimidar e ameaçar quem discorda não é liberdade de expressão. É intolerância.
Quando exigimos que todos pensem como nós, não estamos defendendo a liberdade de pensamento, mas tentando impor limites ao pensamento alheio. E essa reflexão precisa valer para todos os lados, inclusive para aquele com o qual nos identificamos.
Essa intolerância também atravessou grupos que, historicamente, precisaram se unir para enfrentar o preconceito. A comunidade LGBTQIA+, por exemplo, reúne pessoas com diferentes visões políticas, e isso é legítimo. O preocupante é quando divergências eleitorais transformam pessoas que compartilham experiências de discriminação em adversárias, enfraquecendo laços de solidariedade que deveriam continuar existindo apesar das diferenças.
Ninguém deveria precisar concordar politicamente com alguém para respeitar sua dignidade. Podemos discordar de escolhas, criticar posicionamentos e defender ideias diferentes sem esquecer que o outro também tem direitos, sentimentos e uma história.
Não precisamos pensar igual para permanecer juntos. Precisamos apenas entender que nenhuma divergência política nos dá o direito de retirar do outro sua dignidade.
Isso não significa aceitar tudo, fechar os olhos para injustiças ou permanecer em silêncio diante do preconceito. Significa compreender que podemos combater ideias e atitudes que consideramos erradas sem transformar pessoas em inimigas ou recorrer à humilhação como instrumento de convencimento.
A democracia não exige que sejamos iguais. Exige que saibamos conviver com nossas diferenças. E respeitar alguém não significa concordar com tudo o que essa pessoa diz ou faz. Significa reconhecer que a divergência, por si só, não autoriza a ameaça, a violência ou a exclusão.
Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja apenas se estamos do lado certo, mas o que estamos nos tornando enquanto tentamos provar que temos razão.
De que adianta defender a liberdade nas urnas se não conseguimos respeitá-la dentro de casa? De que adianta falar em democracia se não aceitamos o contraditório? E de que vale lutar por um mundo melhor se, nessa luta, destruímos relações que levamos anos para construir?
A liberdade de opinião perde seu sentido quando só aceitamos o direito de pensar de quem pensa como nós. E existe uma contradição profunda em exigir respeito às nossas escolhas enquanto negamos esse mesmo respeito às escolhas dos outros.
Que a política não nos faça esquecer o amor. Que as divergências não apaguem nossa humanidade. E que nenhuma eleição seja mais importante do que a capacidade de reconhecer o outro como alguém digno de respeito.
No fim, podemos até não concordar sobre os caminhos que o país deve seguir. Mas precisamos decidir que tipo de sociedade queremos construir: uma em que todos sejam pressionados a concordar ou uma em que ninguém precise abrir mão de suas convicções para ser tratado com dignidade.
Porque pensar diferente é um direito. Respeitar o outro é uma escolha. E preservar a nossa humanidade deveria ser um compromisso de todos.
Thiago Antônio Batalha
É formado em Gestão Pública, cursa Administração Pública e é pós-graduado em Ciências Políticas, Políticas Públicas e Direito Eleitoral.












