Finados: há mortos que vivem e vivos que já morreram
01/11/2026 às 20:57 Opinião
Neste Dia de Finados, meu lamento não é apenas pelos que partiram. Lamento por aqueles que passam pela vida sem compreender o verdadeiro sentido de viver.
Lamento por aqueles que fizeram da existência uma busca incessante por prazeres terrenos, dinheiro, poder e vaidades — que se ocuparam tanto em conquistar o mundo que se esqueceram de cuidar da própria alma. Lamento pelos que viveram apenas para si, indiferentes ao sofrimento alheio, e por aqueles que fizeram da maldade um instrumento de dominação, deixando na história marcas de dor em vez de virtude.
Lamento pelos mortos-vivos: aqueles que, mesmo respirando, já perderam a capacidade de amar, de se compadecer e de enxergar além dos próprios interesses. Trocaram a esperança da eternidade pela ilusão de um poder que termina na sepultura. Atravessam o mundo como se a vida fosse apenas um intervalo entre o nascimento e o fim. Não semeiam, não edificam, não deixam exemplos.
Alguns simplesmente expiram. Outros inspiram.
Mas hoje não quero dedicar minhas lembranças apenas aos que desperdiçaram a oportunidade de viver. Quero, sobretudo, celebrar aqueles que compreenderam que a vida não termina quando o coração deixa de bater.
Celebro meus avós, meu sobrinho, meus familiares e tantas pessoas que tive o privilégio de conhecer. Pessoas que partiram, mas continuam presentes nas lembranças, nos ensinamentos e nos valores que transmitiram.
E, de maneira muito especial, celebro a vida do meu pai.
Há menos de dois anos ele partiu, mas sua presença continua tão viva entre nós que, às vezes, parece impossível aceitar sua ausência física. Meu pai não nos deixou riquezas que o tempo pudesse consumir; deixou algo infinitamente maior: o exemplo de uma vida guiada pela fé, pela dignidade e pela certeza de que nossa verdadeira morada não é neste mundo.
Ele sabia que estava apenas de passagem. Quando lhe perguntavam o que mais desejava na vida, sua resposta não era dinheiro, saúde ou longevidade. Ele desejava a vida eterna. Era esse o seu maior anseio: viver sem se afastar de Deus, cuidar da própria alma e preparar-se para o encontro com o Sagrado.
É por isso que, neste Dia de Finados, não quero lamentar sua morte, mas celebrar sua existência, os valores que recebi e a fé que ele nos deixou como herança. Ele continua vivo em seus filhos, netos, bisnetos e em todos que conheceram sua bondade. E, se depender de nós, sua memória atravessará gerações.
Hoje, enquanto tantos visitam cemitérios para recordar seus mortos, volto meu pensamento para o céu. Gosto de imaginar que há festa na eternidade e que meu pai encontrou aquilo pelo qual viveu e em que depositou toda a sua esperança.
Para quem acredita na vida eterna, a morte não é o fim — é a passagem. E talvez essa seja a maior lição deste dia: não importa quanto tempo vivemos, mas o que fazemos com o tempo que Deus nos concede.
Há mortos que continuam iluminando o mundo. E há vivos que, infelizmente, já apagaram a própria luz.
Meu pai partiu, mas sua luz permanece. Que Deus nos conceda a sabedoria de viver de tal maneira que, quando chegar a nossa hora, não deixemos apenas saudades, mas razões para que nossa vida seja celebrada.
Amém.
Bernadete Freire Campos
Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.