
Lula repete os erros que levaram Dilma ao impeachment

04/11/2026 às 20:37 Opinião

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A possível aproximação de André Lara Resende com o governo Lula reacende o debate sobre experiências econômicas do passado e os riscos de uma redução acelerada dos juros.
Quem viveu os anos 1980 e o início da década de 1990 certamente não esqueceu o pesadelo da hiperinflação brasileira.
Foram sucessivas tentativas de controlar os preços e estabilizar a economia: Plano Cruzado, Cruzado II, Plano Bresser, Plano Verão, Collor I e Collor II. Congelamentos, mudanças de moeda, perda do poder de compra e até o traumático bloqueio da poupança marcaram aquele período.
Somente em 1994, com o Plano Real, o Brasil conseguiu finalmente vencer a hiperinflação.
E POR QUE RECORDAR TUDO ISSO AGORA?
Porque um personagem importante daquela época voltou ao centro das discussões econômicas: André Lara Resende.
O economista integrou a equipe econômica durante o Plano Cruzado, embora suas propostas não tenham sido adotadas naquele programa.
Anos depois, segundo relato do próprio Fernando Collor, Lara Resende foi consultado sobre a possibilidade de bloquear ativos financeiros da população para retirar dinheiro de circulação e combater a inflação.
Ele teria considerado a medida tecnicamente viável, mas politicamente impossível. Posteriormente, o governo Collor adotou o bloqueio, que se transformou em um dos episódios mais traumáticos da história econômica brasileira.
É preciso reconhecer que Lara Resende também foi um dos formuladores do bem-sucedido Plano Real.
Entretanto, sua nova proposta para a política monetária brasileira desperta questionamentos.
A ideia é reduzir a taxa Selic de 13,75% para aproximadamente 7,5% em apenas 12 meses, mediante alterações na condução da política monetária.
O nome do economista voltou a circular nos bastidores políticos como possível integrante da equipe econômica de Lula, embora o Ministério da Fazenda tenha negado que esteja considerando a proposta.
O FANTASMA DA POLÍTICA ECONÔMICA DE DILMA
A discussão inevitavelmente remete ao governo Dilma Rousseff.
Durante sua administração, o Banco Central promoveu uma redução acelerada dos juros, dentro de uma estratégia econômica que também envolveu maior intervenção estatal e estímulos ao consumo e ao investimento.
O resultado posterior foi uma combinação de inflação elevada, deterioração das contas públicas, perda de confiança e uma das recessões mais profundas da história brasileira.
É evidente que a crise não teve uma causa única. Tampouco o impeachment de Dilma decorreu simplesmente da condução da política monetária. A presidente foi afastada em um processo relacionado a infrações orçamentárias, em meio a uma grave crise política e econômica.
Ainda assim, a experiência deixou uma lição: reduzir juros sem assegurar condições macroeconômicas sustentáveis pode produzir consequências indesejadas.
O BRASIL VAI REPETIR OS ERROS DO PASSADO?
Não existe dúvida de que juros menores são desejáveis para consumidores, empresas e investidores.
A questão é saber se uma redução tão expressiva pode ocorrer sem comprometer o controle da inflação, a estabilidade cambial e a credibilidade da política monetária.
Defensores de mudanças na condução dos juros argumentam que o modelo atual impõe custos excessivos à economia. Críticos alertam que reduções incompatíveis com as expectativas inflacionárias e com a situação fiscal podem produzir efeitos contrários aos pretendidos.
O Brasil já experimentou diferentes fórmulas heterodoxas de combate à inflação. Algumas fracassaram de maneira traumática. Outras, como o Plano Real, contribuíram decisivamente para a estabilidade monetária.
Por isso, antes de embarcar em uma nova experiência, seria prudente examinar seus fundamentos, riscos e consequências.
A pergunta que fica é: estamos diante de uma solução inovadora para a economia brasileira ou de mais uma tentativa de resolver problemas estruturais com decisões sobre a taxa de juros?
A história econômica do Brasil recomenda que essa discussão seja tratada com muita cautela.
Veja o vídeo:
Emílio Kerber Filho
Jornalista e escritor.











