A lição do Paraguai que o Brasil insiste em não aprender

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O Paraguai acaba de dar uma demonstração de que a sobrevivência política de um presidente não precisa estar acima dos interesses de uma nação.

Em meio a um escândalo financeiro de grandes proporções, o presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia na quinta-feira (5), depois de perder sustentação política até mesmo entre integrantes do seu próprio partido.

A crise começou com o colapso do Ueno Bank, instituição financeira que atendia aproximadamente três milhões de clientes, quase metade da população paraguaia.

Milhões de pessoas ficaram sem acesso às suas economias. As denúncias envolveram suspeitas de irregularidades financeiras, conflitos de interesses e possíveis omissões de autoridades responsáveis pela fiscalização.

Peña, que havia sido acionista do grupo controlador do banco até março de 2025, passou a enfrentar acusações da oposição e uma pressão crescente por seu afastamento.

O presidente negou irregularidades e defendeu a apuração dos fatos.

Mas o aspecto mais impressionante dessa crise não foi apenas a gravidade das denúncias.

Foi a velocidade da reação política.

Enquanto a oposição se mobilizava para abrir um processo de impeachment, integrantes do próprio Partido Colorado, legenda do presidente, retiraram sua sustentação política.

Peña percebeu que havia perdido as condições de continuar governando e apresentou sua renúncia.

Entretanto, até a noite de quinta-feira, o Congresso ainda não havia concluído a análise necessária para efetivar sua saída, enquanto o processo de impeachment continuava avançando.

Independentemente do desfecho institucional, o episódio oferece uma lição importante ao Brasil.

No Paraguai, ao menos neste episódio, o partido demonstrou que sua sobrevivência política não precisava estar vinculada à defesa incondicional de seu presidente.

E aqui surge uma pergunta inevitável: o que aconteceria se uma crise semelhante atingisse o governo brasileiro?

No Brasil, frequentemente assistimos a um fenômeno preocupante: a transformação de lideranças políticas em figuras praticamente intocáveis para seus seguidores.

As denúncias deixam de ser analisadas pelo seu conteúdo e passam a ser julgadas conforme a identidade de quem está sendo acusado.

Se o investigado pertence ao grupo adversário, exige-se punição imediata.

Se pertence ao próprio grupo, multiplicam-se as justificativas, as relativizações e as tentativas de desqualificar os denunciantes.

É a lógica do político de estimação.

Uma prática que enfraquece a democracia, compromete a fiscalização do poder e transforma a fidelidade partidária em instrumento de proteção política.

Isso não significa defender condenações antecipadas. Qualquer presidente, seja no Paraguai ou no Brasil, tem direito à presunção de inocência, ao contraditório e à ampla defesa.

Mas responsabilidade política e responsabilidade criminal são conceitos diferentes.

Um governante pode perder as condições políticas de permanecer no cargo antes mesmo de existir uma condenação judicial definitiva.

O caso paraguaio demonstra como uma crise de confiança pode provocar consequências políticas rápidas quando a própria base governista deixa de oferecer apoio incondicional.

E essa talvez seja a principal lição para o Brasil.

Partidos políticos não deveriam existir para proteger seus líderes a qualquer custo. Deveriam existir para representar ideias, defender princípios e servir à sociedade.

O episódio também representa um alerta ao presidente Lula e a qualquer outro ocupante do Palácio do Planalto: nenhum mandato constitui um salvo-conduto contra a cobrança pública.

A democracia não pode depender da popularidade de um líder nem da disposição de seus aliados para defendê-lo.

Ela depende de instituições que funcionem, fiscalização independente e coragem política para reconhecer quando a permanência de um governante se torna insustentável.

O Paraguai ainda terá de enfrentar as consequências econômicas, jurídicas e institucionais dessa crise. A apresentação da renúncia não resolve automaticamente o prejuízo dos correntistas nem comprova a responsabilidade criminal de qualquer autoridade.

Mas uma mensagem já ficou evidente.

Nenhum político deve ser maior do que a nação que governa.

E talvez seja justamente essa a lição que o Brasil mais precisa aprender.

Afinal, por aqui, quantos escândalos seriam necessários para que os próprios aliados de um presidente deixassem de protegê-lo?

Emílio Kerber Filho

Jornalista e escritor.

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