A estranha manifestação de Moraes sobre mensagens bizarras com Daniel Vorcaro
06/11/2026 às 17:01 Direito e Justiça
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), apresentou diferentes manifestações públicas para contestar informações relacionadas a supostas conversas com Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Um relatório elaborado pela Polícia Federal (PF), cujo sigilo foi retirado em 1º de setembro, apontou que o ex-banqueiro teria enviado 52 mensagens ao magistrado.
Os registros foram extraídos de um dos celulares apreendidos pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão de Vorcaro. Moraes, entretanto, nega ter mantido qualquer troca de mensagens com o empresário.
Desde a primeira detenção do banqueiro e a liquidação do Banco Master, em novembro de 2025, o ministro divulgou um ofício e três manifestações oficiais para apresentar sua versão dos acontecimentos. Entre os esclarecimentos, afirmou que nunca discutiu questões relacionadas à instituição financeira com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, negou ter sido o destinatário de mensagens enviadas por Vorcaro no dia de sua prisão e classificou os diálogos apontados pela investigação como “diálogos fantasiosos”.
As manifestações também abordaram reuniões com representantes do setor financeiro, questionamentos sobre a análise dos dados extraídos do celular do empresário e críticas à condução das investigações pelo ministro André Mendonça.
Ofício de setembro de 2026
Em 14 de setembro de 2026, Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, um documento de 44 páginas no qual contestou duramente o relatório da Polícia Federal, elaborado a pedido de André Mendonça.
No texto, o magistrado classificou o material como uma “farsa” e atribuiu sua suposta motivação a interesses político-eleitorais relacionados às condenações envolvendo a tentativa de golpe de Estado.
Moraes declarou:
“Apesar da farsa montada e divulgada, não existe absolutamente nada e todos sabem a motivação político-eleitoral dessas criminosas mentiras. VINGANÇA. Está muito clara a tentativa de vingança dos aliados daqueles que tentaram acabar com a Democracia e o Estado de Direito e foram condenados pelo SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL”.
O ministro também relacionou as investigações sobre a tentativa de golpe aos questionamentos que passou a enfrentar. Moraes foi relator dos processos no Supremo que resultaram nas condenações do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outras autoridades.
“A tentativa de golpe não se encerrou em 8/1/2023, simplesmente mudou seu ‘modus operandi’. Mas assim como na 1ª vez, o Supremo Tribunal Federal saberá resistir e sairá fortalecido”, disse Moraes.
Ao tratar especificamente das mensagens atribuídas a ele, o magistrado rejeitou a existência de qualquer diálogo com Vorcaro relacionado à Operação Compliance.
“Nenhuma ilação foi mais falsa, criminosa e mentirosa do que a questão dos supostos diálogos por mensagens entre mim e Daniel Vorcaro, supostamente relacionadas à ‘Operação Compliance’. MENSAGENS MINHAS que nunca existiram. DIÁLOGOS FANTASIOSOS”.
O documento também apresenta críticas à atuação de André Mendonça. Em diferentes passagens, Moraes questionou a metodologia utilizada na análise dos arquivos extraídos do celular de Vorcaro e empregou o termo “ilegal” para caracterizar procedimentos atribuídos ao colega de Corte.
Segundo o ministro, a seleção das mensagens teria ocorrido de maneira direcionada para sustentar uma hipótese previamente estabelecida. Ele argumentou que, em meio a milhares de registros, teriam sido destacados apenas aqueles considerados relevantes para construir uma interpretação desfavorável à sua atuação.
Moraes também afirmou que Mendonça teria desconsiderado outras explicações possíveis para a existência dos conteúdos encontrados no bloco de notas do iPhone de Vorcaro.
De acordo com o relatório da PF, o empresário escrevia as mensagens no aplicativo de notas do aparelho, fazia capturas de tela e encaminhava as imagens por meio do recurso de visualização única.
Em sua defesa, o ministro apresentou quatro hipóteses técnicas para questionar a interpretação dos investigadores:
O conteúdo registrado no bloco de notas poderia nunca ter sido encaminhado a outra pessoa.
As mesmas informações poderiam ter sido enviadas a diferentes destinatários em momentos distintos, conforme a criação das capturas de tela.
As mensagens poderiam ter sido encaminhadas, mas apagadas antes de serem visualizadas.
O conteúdo poderia ter sido enviado sem que o destinatário chegasse a abri-lo.
Com base nessas possibilidades, Moraes sustentou que os registros não comprovam a existência de uma conversa entre ele e o fundador do Banco Master.
O ministro reforçou sua posição com a seguinte declaração:
“NÃO EXISTE DIÁLOGO, que pressupõe a existência de dois interlocutores, pois não há UMA ÚNICA MENSAGEM OU BLOCO DE NOTAS COM O TEXTO DE MENSAGENS DO MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES”.
Manifestações de dezembro de 2025 sobre reuniões com o Banco Central
Em 23 de dezembro de 2025, o gabinete de Alexandre de Moraes divulgou duas notas oficiais, publicadas às 9h26 e às 21h26. Os comunicados tiveram como objetivo esclarecer informações sobre encontros do ministro com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
Moraes confirmou a realização de duas reuniões presenciais com Galípolo em seu gabinete: a primeira em 14 de agosto de 2025 e a segunda em 30 de setembro do mesmo ano.
Segundo o magistrado, os encontros trataram exclusivamente dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky pelo governo dos Estados Unidos. Ele também negou ter telefonado para o presidente do Banco Central ou discutido qualquer assunto relacionado à negociação envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master.
As manifestações ainda abordaram a atuação do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O gabinete afirmou que a banca nunca participou da operação de aquisição do BRB pelo Banco Master perante o Banco Central.
A controvérsia ganhou repercussão após a jornalista Malu Gaspar publicar, em 9 de dezembro de 2025, uma informação sobre um contrato de R$ 129 milhões entre o escritório de Viviane e o Banco Master. Em setembro de 2026, após a retirada do sigilo do processo, o acordo se tornou público.
O escritório da esposa de Moraes afirmou que o magistrado teve acesso ao documento antes da assinatura e participou de sua edição.
Na primeira manifestação, divulgada às 9h26 de 23 de dezembro, o ministro explicou que recebeu diferentes representantes do setor financeiro para tratar das consequências da Lei Magnitsky.
O comunicado mencionou encontros com o presidente do Banco Central, a presidente do Banco do Brasil, o presidente e o vice-presidente Jurídico do Banco Itaú. Também foi citada uma reunião conjunta com dirigentes da Confederação Nacional das Instituições Financeiras, da Febraban e do BTG, além de vice-presidentes do Santander e do Itaú.
Segundo a nota, as conversas trataram exclusivamente de questões relacionadas à manutenção da movimentação bancária, contas correntes e utilização de cartões de crédito e débito diante das restrições decorrentes da legislação norte-americana.
Já no segundo comunicado, divulgado às 21h26, Moraes detalhou as datas dos encontros com Galípolo e voltou a negar qualquer discussão sobre a negociação entre BRB e Banco Master.
A nota afirmou:
“O Ministro Alexandre de Moraes esclarece que realizou, em seu gabinete, duas reuniões com o Presidente do Banco Central para tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky. A primeira no dia 14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/08; e a segunda no dia 30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no dia 22/09. Em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente à aquisição do BRB pelo Banco Master. Esclarece, ainda, que jamais esteve no Banco Central e que inexistiu qualquer ligação telefônica entre ambos, para esse ou qualquer outro assunto. Por fim, esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central.”
Nota de março de 2026 sobre mensagens enviadas no dia da prisão de Vorcaro
Em 6 de março de 2026, a Secretaria de Comunicação do Supremo Tribunal Federal divulgou outro esclarecimento em nome de Alexandre de Moraes. Dessa vez, o objetivo foi contestar a informação de que o ministro teria recebido mensagens encaminhadas por Daniel Vorcaro em 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão do empresário.
A manifestação foi publicada em resposta a uma reportagem de Malu Gaspar, divulgada naquele mesmo dia.
O gabinete afirmou que uma análise técnica dos dados telemáticos do ex-banqueiro, disponibilizados pela CPMI do INSS, teria demonstrado que as mensagens de visualização única não estavam vinculadas aos contatos telefônicos de Moraes.
O comunicado também explicou que os registros das mensagens e os respectivos contatos estavam armazenados na mesma pasta do computador utilizado por Vorcaro para produzir as capturas de tela.
Na nota, o Supremo declarou:
“Análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos. A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro). Ou seja, fica demonstrado que as mensagens (prints) estão vinculadas a outros contatos telefônicos no computador de Daniel Vorcaro, jamais ao Ministro Alexandre de Moraes. Os nomes e contatos das pessoas vinculadas dos respectivos arquivos não serão mencionados na presente nota em virtude do sigilo decretado pelo Ministro André Mendonça, mas constam no arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa.”
Sessão no STF em 15 de setembro de 2026
Outro episódio relacionado ao caso ocorreu durante uma sessão do plenário do Supremo Tribunal Federal, em 15 de setembro de 2026. Na ocasião, os ministros deveriam analisar a possibilidade de abertura de investigação contra Alexandre de Moraes em razão de sua suposta relação com Daniel Vorcaro.
Entretanto, o mérito da questão não chegou a ser apreciado. Os integrantes da Corte discutiram uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, que, na prática, adiaria a decisão sobre o assunto. O ministro Flávio Dino pediu vista, interrompendo o julgamento.
A sessão também ficou marcada por um clima de tensão, com discussões acaloradas e troca de ofensas entre ministros.
Durante o debate, Moraes voltou a criticar a atuação de André Mendonça. O magistrado questionou a abertura de procedimentos investigativos sem uma solicitação formal da Procuradoria-Geral da República (PGR) ou da Polícia Federal.
Ele também afirmou que não existem capturas de tela de conversas propriamente ditas entre ele e Vorcaro, mas apenas registros do bloco de notas do celular do empresário.
As declarações e os documentos relacionados à sessão foram disponibilizados pelo Supremo, incluindo a íntegra do debate e as manifestações feitas por Moraes durante o julgamento.
da Redação