No Paraguai o presidente cai, aqui ele se reelege...

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No Paraguai, um escândalo financeiro levou o presidente Santiago Peña a apresentar sua renúncia em 5 de novembro.

A crise do Ueno Bank, ligado ao grupo empresarial do qual ele havia sido sócio, bloqueou o acesso de milhões de clientes ao próprio dinheiro e colocou sob suspeita a relação entre interesses privados, recursos públicos e fiscalização estatal.

A conta não fechou, a imprensa cobrou, as instituições reagiram e o palácio ficou vazio.

Aqui, não. Aqui a conta nunca fecha e o palácio sempre está cheio.

Aqui temos ministros envolvidos até o pescoço, filhos que enriqueceram sem nunca terem trabalhado, esposas com contas e jóias e imóveis que ninguém explica amigos de todas as horas virando operadores, estatais sangrando e escândalos que se sobrepõem como camadas de tinta velha.

Lá é um caso que derruba.

Aqui são dezenas que elegem.

A diferença não está na gravidade do crime. Está na gravidade da complacência.

No Paraguai ainda existe vergonha. Ainda existe oposição. Ainda existe uma imprensa que morde e uma justiça que, ao menos nesse caso, não se ajoelhou.

Caiu porque lá o sistema ainda entende que presidente não é intocável.

Aqui o sistema aprendeu a proteger o intocável.

Criou-se uma blindagem perfeita: uma narrativa que transforma investigação em perseguição, corrupto em vítima e eleitor em cúmplice.

Aqui tudo é golpe, nada é crime.

Enquanto um país vizinho, mais pobre e menor, demonstra que tem estômago para amputar o próprio poder, nós exibimos com orgulho nossa capacidade infinita de engolir qualquer coisa, desde que venha embrulhada na bandeira certa, na narrativa correta.

No Paraguai, um presidente cai. No Brasil, ele se reelege.

E a cada reeleição, não é ele quem vence. É a nossa decadência que se confirma.

É o povo que perde.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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