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Por que o brasileiro deve ajudar a custear a assistência médica de quem já deixou um mandato — e ainda tem que ver esse benefício alcançar os familiares desse privilegiado do sistema?
A pergunta é simples. O constrangimento começa quando se exige uma resposta.
Não se discute aqui o direito de ninguém à saúde. Discute-se por que a passagem pelo poder deve abrir portas que permanecem fechadas para quem sustenta esse mesmo poder com impostos.
Mandato é serviço temporário. Não deveria funcionar como título de propriedade sobre vantagens permanentes.
A ampliação da assistência à saúde para dependentes de ex-senadores, noticiada em outubro, recoloca essa discussão na mesa. Segundo a reportagem, um ato de Davi Alcolumbre permite incluir familiares conforme os critérios aplicados aos servidores, com efeitos financeiros a partir de novembro, sem apresentar no documento citado uma estimativa de custo ou do número de beneficiários.
Há contribuições dos usuários. E o Senado informa que a categoria de dependentes adultos não estudantes, de 21 a 33 anos, não recebe contrapartida da União nas mensalidades. Esses detalhes precisam ser respeitados. Mas não eliminam a obrigação de esclarecer o custo público efetivo do sistema e justificar cada vantagem oferecida depois do mandato.
O problema é maior que esse episódio. É a facilidade com que despesas da vida privada passam a ser tratadas como obrigações do Estado quando o interessado tem acesso à caneta que escreve a regra.
Quem autoriza precisa explicar. Quem recebe precisa prestar contas. Quem paga tem direito de contestar.
O dinheiro público não aparece por geração espontânea. Sai do trabalho, do consumo e da renda de gente que também precisa pagar aluguel, comprar remédio e fazer a comida chegar ao fim do mês.
Para essa gente, a falta de recursos é uma limitação concreta. Para quem decide o próprio benefício, deveria ser uma responsabilidade ainda maior.
Salário pelo trabalho, estrutura necessária ao cargo e ressarcimento de despesa funcional comprovada podem ter justificativa. Conforto particular, proteção familiar e vantagem mantida depois da função exigem outra explicação.
Não basta chamar tudo de “direito adquirido”, “regulamento” ou “prerrogativa” e esperar que o contribuinte aceite calado.
Estar previsto numa norma responde como o benefício existe. Não responde por que ele deve existir.
E há uma questão política ainda mais incômoda: o que acontece com a independência de quem passa a depender de uma coleção de vantagens administradas dentro da própria estrutura de poder?
Não é preciso afirmar que todo beneficiário vendeu sua consciência. É preciso perguntar quanto espaço um sistema desses abre para acomodação, troca de favores e silêncio conveniente.
Um benefício não comprova corrupção. A distribuição de vantagens, porém, merece fiscalização justamente porque pode se tornar instrumento de influência.
A captura não precisa começar com dinheiro escondido. Pode começar com a naturalização de uma dependência: não contrariar quem controla a vantagem, não questionar o acordo que preserva o conforto, não mexer no arranjo do qual todos os integrantes da mesa se beneficiam.
Nesse ambiente, a pergunta corre o risco de mudar. Sai “isso serve ao país?” e entra “isso ameaça o que eu recebo?”.
É assim que a independência pode ser substituída pela conveniência.
E não adianta concentrar toda a cobrança no presidente da República. O Executivo não pode simplesmente apagar, por vontade própria, todas as regras do Legislativo. Há competências, leis, atos internos e limites constitucionais. A cobrança deve alcançar cada autoridade e cada instituição responsável por criar, aprovar, financiar e manter o benefício.
Separação de Poderes não pode virar separação de responsabilidades.
Querem demonstrar compromisso com o dinheiro público?
Publiquem a lista de benefícios, as bases legais, os critérios de acesso, as contribuições e os custos. Expliquem o que é indispensável ao serviço e o que atende apenas à vida particular. Submetam o que não tiver justificativa pública a revisão e extinção pelos instrumentos competentes.
Sem esconder a despesa em rubricas incompreensíveis. Sem ampliar cobertura antes de esclarecer quem vai pagar.
Os beneficiários gostariam de perder essas vantagens? Talvez não. Mas o interesse de quem recebe não pode ser o único critério para decidir o destino do dinheiro de quem paga.
A República não foi criada para garantir que a vida dos seus dirigentes seja protegida das dificuldades que eles deveriam enfrentar em favor da população.
O mandato acaba. A obrigação do contribuinte de sustentar privilégios não pode continuar por inércia.
Porque um dia foram políticos não quer dizer que tenham de levar para casa os benefícios de uma função extinta. Quando falam em economia, diminuem os índices de vantagens para o povo. E aumentam suas próprias vantagens.
Eles tomam posse. Nós pagamos a conta.
E quem paga tem o direito de exigir que a conta seja encerrada.
FONTES:
Metrópoles, 22/10/2026: https://www.metropoles.com/brasil/alcolumbre-amplia-plano-de-saude-de-ex-senadores-para-familiares
Senado Federal, 23/07/2026: https://www12.senado.leg.br/institucional/sis/noticias-comum/dependentes-que-deixaram-de-ser-estudan...
Constituição Federal: https://www4.planalto.gov.br/legislacao/legis-federal/constituicao
Jayme Rizolli
Jornalista.













