A carta, 518 anos depois...

Senhor:

Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que - para o bem contar e falar - o saiba pior que todos fazer.

Peço-lhe, entretanto, o Vosso Real perdão pelo atraso desta carta, que chega ao conhecimento de Vossa Alteza apenas 518 anos depois. É que os Correios aqui na nova terra além de só se meterem em licitações fraudulentas e serem controlados por nativos corruptos, são de uma ineficiência sem precedentes. Antes eu tivesse mandado sinais de fumaça, pois estes teriam chegado primeiro. Mas vou directo ao que lhe descrevo em pormenores...

Aqui tudo o que se planta dá. As mulheres já davam e muito, mas a novidade é que muitos dos homens passaram a dar também. Nunca se viu tanta luta de mandioca.

Ao fundearmos nessas águas e baixarmos à terra, fomos recebidos por nativos que cantavam coisas como aê aê iô iô iô, num ritual chamado "micareta". Algo envolvente, mas ininteligível, pelo menos para a nossa língua e nossos costumes. As mulheres dançavam seminuas de um lado, e do outro os homens se esfregavam, só que uns nos outros. Cousa deveras estranha, mas se alguém falar alguma coisa, eles se zangam e querem guerra.

Alguns machos apenas chutavam algo redondo como um côco, gritando feito alucinados e muitas vezes agredindo uns aos outros. Deve ser algum ritual de iniciação deles.

Desembarcamos para tentar uma comunicação com os nativos., porém notamos que eles se dividem em duas tribos distintas e que não se dão bem uma com a outra. Uma é situada à esquerda e outra à direita.

A tribo da esquerda é bastante arredia mas ao mesmo tempo malemolente e composta por indivíduos afeitos à vagabundagem. Trajados em vestes tingidas de vermelho, parece quererem que tudo lhes caia do céu, e em vez de dedicarem-se ao labor como as outras tribos, passam o tempo a fazer planos de como invadir as terras alheias, a tomar o que é dos outros e a enganar a todos. Afastamo-nos dessa tribo de humanoides porque eles se mostraram espertalhões e não possuem qualquer sentido de limite. de moral e não se aproximam de seres humanos.

São esses nativos comandados por um elemento que é uma espécie de divindade para eles, a quem eles chamam de Luh Lah ou cousa semelhante. Ao seu lado está uma nativa chamada Glêisi, que traduzindo do tupicaretagem (a língua deles) para o português deve significar "vaca que fala".

Vossa Alteza haverá de se surpreender pois tal tribo têm hábitos um tanto quanto imorais e em sua cultura a subtração da cousa alheia é algo louvável, tanto que dedicam-se a venerar aquele que mais praticou tais atos. A vadiagem é um hábito normal entre eles, e mostram-se improdutivos e pouco ou nada inteligentes. Mistério maior reside em descobrir como esses pequenos animais humanoides conseguem sustentar-se sobre os dois pés, andando erectos como se humanos fossem. As fêmeas deles são muito feias e os machos, se é que são, são indescritivelmente primitivos. Muitos deles fumam um fumo esverdeado de forte odor acridoce, e depois disso não falam mais nada com nada e só repetem "Luh Lah", em culto à sua talvez demoníaca divindade.

Já os da direita são mais mansos, embora frouxos. Aceitam de tudo passivamente e não se organizam como os primeiros descritos. São como as aves que aqui sobram: Só cantam alto, mas não bicam ninguém. Pelo menos uma coisa de boa há nessa tribo: São trabalhadores e inclusive produzem tudo o que os indígenas da outra tribo aproveitam. Sentem-se como alimentando os seres inferiores, que vivem apenas de tomar, pedir e reclamar.

Hà uma tribo aqui nestas terras que é chamada por eles de Brasília, que traduzo como "ilha em brasa", embora esteja localizada na porção central da nova terra.

Nesta tribo os caciques e pajés da esquerda e da direita se reúnem. Lá é o único lugar onde se dão bem, pois articulam juntos as subtrações que farão das demais tribos. Tudo isso sob a tutela de um grupo de pajés supremos vestidos em fibras negras que muito se assemelham aos nossos mantos.

Descrita aqui a nova terra, o Capitão-Mor da Esquadra informa que fará meia volta e seguirá para as Índias, onde há civilização. Caso Vossa Alteza não concorde com o novo rumo da Esquadra, Real, o Capitão sugere que venha Vossa Alteza pessoalmente fixar-se aqui, mas com a recomendação para que deixe todos os vossos apetrechos prateados e dourados em casa, pois corre o risco de ser assaltado antes que dê dois passos após o desembarque, assaltos esses praticados pela tribo dos perdeu-perdeu, e que a tribo da esquerda protege.

Sugere o Capitão-Mor que se Vossa Alteza ainda insistir na nossa presença neste pardieiro selvagem, que então o introduza em Vosso Orifício Real, pois daqui vamos "meter o pé" como dizem os locais.

Pero Vaz de Caminha

Terra de Santa Cruz, 22 de abril de 2018.

PS: Considere apenas como Brasilis, pois se eu falar em "terra", os humanoides da tribo MST invadem; santa aqui não existe mais, e se eu falar em cruz, alguma fêmea da tribo da esquerda vai querer introduzir nas partes íntimas em protesto pelo sei-lá-o-quê... Talvez pela nossa presença.

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