O movimento de maio de 1968

O movimento de maio de 1968, na França, continua sendo uma referência política para a esquerda e para a direita, para jovens e para idosos.

Há cinquenta anos, cerca de um milhão de pessoas decretaram a maior greve geral já vista na Europa, desencadeando uma onda de protestos e quebra-quebra. O movimento balançou as bases do governo de Charles De Gaulle, um ícone da República Francesa e se espalhou para o mundo.

Tudo começou com a ocupação da Universidade de Nanterre, em 22 de março, gerando sérios conflitos entre as autoridades universitárias e os estudantes descontentes com a administração da instituição.

A reitoria decidiu fechar a universidade e expulsar os líderes do movimento, provocando a reação dos alunos de uma das mais renomadas universidades do mundo, a Sorbonne, que fechou suas portas e depois foi invadida pela polícia. Os universitários reagiram montando barricadas nas ruas de Paris e utilizando pedras para enfrentar as forças policiais.

O Sindicato dos Professores Universitários e a União Nacional de Estudantes da França convocaram uma passeata para o dia 6 de maio, em protesto contra a invasão da Universidade. A marcha foi reprimida e a multidão se dispersou. Grupos de manifestantes reagiram erguendo barricadas e lançando pedras contra os soldados que “bateram em retirada”. A força policial retomou a ofensiva disparando gás lacrimogêneo e “descendo o cassetete” com vontade. Centenas de manifestantes foram presos e centenas ficaram feridos.

A batalha campal recomeçou no dia 10, continuando até a manhã do dia seguinte. A “noite das barricadas” deixou um saldo (oficial) de 367 feridos (251 policiais e 116 manifestantes).

Os danos materiais foram grandes: 60 veículos incendiados e 128 danificados, além dos estragos em edifícios e instalações.

O Partido Comunista Francês (enfraquecido e sem expressão popular) declarou apoio aos universitários e uma influente federação de sindicatos convocou uma greve geral para o dia 13 de maio. Cerca de dois terços dos operários cruzaram os braços provocando uma crise econômica que se espalhou pela Europa, gerando forte crise política. As palavras de ordem das lideranças do movimento eram tipicamente anarquistas:

“A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista”.
De Gaulle, pragmaticamente, ordenou a reabertura da Sorbonne, a libertação dos presos, dissolveu a Assembleia e “convocou eleições” para junho, prometendo melhorias salariais.

Nas eleições de 30 de junho os gaullistas conquistaram o maior número de cadeiras de toda sua história (358 das 485). Foi um triunfo do “partido do medo” (pequena burguesia, população rural e uma silenciosa multidão de partidários da ordem), segundo os adversários do presidente.

Os estudantes foram desmobilizados, os operários voltaram às fábricas e, no dia seguinte às eleições, De Gaulle demitiu Georges Pompidou e nomeou Maurice Couve de Murville como primeiro-ministro.

Essa estratégia política do general Charles De Gaulle provocou fissuras irreconciliáveis dentro do compacto “gaullismo” até então existente.

Em janeiro do ano seguinte Pompidou apresentou-se como candidato à presidência da República, caso De Gaulle renunciasse.

O “movimento revolucionário francês” teve repercussões no mundo todo, provocando manifestações de apoio, e manifestações contrárias. As relações sociais e políticas mudaram a partir de então, trazendo consequências que influenciam o comportamento das sociedades ocidentais até os dias de hoje.

O ano de 1968, com a “passeata dos cem mil” no Rio de Janeiro (gritando: “Só o povo organizado derruba a ditadura” e “é proibido proibir”) e os movimentos estudantis em São Paulo e nas principais capitais do país, serve de exemplo para as gerações futuras, se contrapondo ao marasmo político da atualidade. Os jovens “revolucionários” divergiam em relação à natureza da “revolução” e as forças da repressão aproveitavam-se dessas divergências.

O jornalista Zuenir Ventura retratou “a aventura de uma geração” de brasileiros em sua monumental obra “1968 – O ano que não terminou”, onde diz:

“Foi o melhor dos tempos e o pior dos tempos, a idade da sabedoria e da insensatez, a era da fé e da incredulidade, a primavera da esperança e o inverno do desespero. Tínhamos tudo e nada tínhamos”.
O ano terminou com a edição do AI-5, de triste memória.

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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