Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

A patética intervenção do Ministério Público e do "politicamente correto" numa obra de ficção

Quando o "Segundo sol" estrear, vai desafiar a lógica dos criadores de tretas.

Afinal, como é que pode uma novela se passar na Bahia e o elenco não ser formado por 63,4% de pardos e 15,7% de pretos?

É natural - convenhamos - que, numa obra ambientada em Santa Catarina, haja predominância de louros, louras e lourxs, ou que traços amazônicos surjam nos rostos se o cenário for Marajó. Mas será obrigatório que faça frio ou chova em 80% das cenas locadas em Curitiba, e um calor cuiabano em 120% das que forem gravadas em Cuiabá?

Acontece que - para o bem e para o mal - não vivemos mais naquele planeta em que os atores de "Caminho das Índias" não precisavam ser indianos, nem ser marroquinos os d'"O Clone" ou turcos os de "Salve Jorge" - para ficar nas tramas da Gloria Perez.

Foi-se o tempo da ficção ficcional, sem compromissos demográficos, quando a estrutura da trama e o talento de autores, diretores, cenógrafos, figurinistas e atores era o que contava. O resto ficava por conta da nossa capacidade de suspensão da realidade.

A paranaense Sonia Braga murmurava "Moço bonito..." pro paulista Armando Bógus (ou para o italiano Marcelo Mastroianni), e nossa ingenuidade pré-empoderamento via ali uma retirante baiana e um imigrante árabe.

Talvez muita gente não saiba, mas Tom Hanks não era soropositivo, Jeremy Irons não era uma pessoa com deficiência física, Anthony Hopkins não era canibal nem Leonard Nimoy era vulcano. E nenhum deles estava usurpando o "lugar da fala" de ninguém. Eram atores. Atuando.

Seria preciso um raciocínio muito torto para acionar o Ministério Público, por exemplo, e tomar satisfações por uma encenação de "Esperando Godot" com elenco feminino (como na montagem com Eva Wilma, Lilian Lemmertz e Lélia Abramo) ou por um Shakespeare interpretado pelo "Nós do morro", da favela do Vidigal (com negros que não existiam como tal no texto original).

Recentemente, o Luís Lobianco - que, por sinal, está no elenco do "Segundo sol" - sofreu boicote por interpretar um personagem transexual, sendo ele, na vida real, apenas homossexual. A regra dos novos tempos é clara: para "interpretar" um/a/x transexual, tem que ser transexual - exatamente como em Malhação.

Hoje, "Cidade de Deus" talvez tivesse que ser refeito, porque cerca de metade da população da Cidade de Deus é composta de mulheres, e o filme tem elenco majoritariamente masculino. "Tropa de Elite" padece do mesmo defeito congênito (onde estão os idosos do Rio de Janeiro?).

Notificada pelo Ministério Público do Trabalho, a Globo pode pedir ao João Emanuel para criar um núcleo etnicamente correto - ou transferir a trama para o Guarujá.

Lacrações à parte, perdeu-se uma excelente oportunidade de fazer história com um elenco inter-racial, repleto de caras novas, oriundas do teatro, ou com atores que acabam só aparecendo nas novelas de época - fazendo ponta ou figuração. Mas não que isso fosse uma obrigação.

E, por uma questão de isonomia, cabe perguntar: a Turquia tem mesmo aquele índice de 100% de beldades, como se vê nas novelas turcas da Band? Serão todos os mexicanos sarados e canastrões, e todas as mexicanas maquiadas e voluptuosas, como as novelas do SBT dão a entender?

Se o MP levar essa cruzada a sério, problemão mesmo vai ter a Record: onde encontrar atores egípcios, sumérios, samaritanos, cananeus, filisteus, assírios e babilônios?

Se bem que, por mim, nem precisavam ser semitas: se faraós e fariseus parassem de falar com sotaque do Baixo Gávea, já ia ser uma mão na roda.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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