Roberto Corrêa Ribeiro de Oliveira

Médico anestesiologista, socorrista e professor universitário

Os médicos estão doentes e gritam por socorro (Veja o Vídeo)

Nesta terça-feira (15), os telejornais brasileiros mostraram para todo o país, a triste cena de um médico de 71 anos de idade, que após se revoltar com as péssimas condições de trabalho começou a quebrar o posto de saúde onde trabalha, na cidade de Cariacica, no ES.

O que está acontecendo com os profissionais de saúde que trabalham no serviço público brasileiro?

Essa é uma pergunta que precisa ser respondida antes de tentar julgar este profissional.

Vários estudos têm demonstrado que a qualidade de vida dos profissionais que trabalham na área da saúde piorou muito nas últimas décadas.

Falta de condições mínimas e adequadas de trabalho, insegurança para exercer sua profissão, pressão do poder judiciário sobre os profissionais da saúde, utilização demagógica e eleitoreira da medicina para ganhar votos em período eleitoral, são apenas alguns dos motivos que tem roubado a paz de quem vive a medicina pública em todo o território nacional.

O pior e o mais triste é que "estamos" ficando cansados de "malhar em ferro frio" e aos poucos vamos nos acomodando e aceitando o inaceitável como viável. Muitas vezes fico revoltado ao notar que jovens profissionais em formação já veem com naturalidade a medicina de guerra que estamos praticando nos serviços de urgência e emergência do SUS.

Quando um "médico das antigas" é obrigado a conviver com o caos, o desrespeito constante não só dele quanto profissional mas também para com os doentes que ele atende, a falta de perspectiva de melhora do quadro relatado e o excesso de trabalho, dentre outras coisas, o resultado às vezes pode ser esse: uma crise de desespero onde o que nos resta é expurgar a nossa raiva e revolta da maneira mais rápida e primitiva. A outra opção seria infartar e morrer.

Como anestesista sou o tempo todo testado; propostas indecorosas de se anestesiar pacientes graves que serão depois da cirurgia jogados sem a mínima e adequada condição de segurança em um corredor quente e lotado, recebo várias durante um dia de trabalho no hospital público onde exerço a minha atividade. E pasmem, para muitos, incluo o poder judiciário nesta lista, o culpado ainda é o médico que luta por um atendimento digno e adequado para o seu paciente.

Para piorar a situação chegou o período eleitoral acompanhado de muitas propostas indecentes e esdrúxulas. Cada Estado deve ter o seu caso próprio para contar. Aqui no TO estão inventando um mutirão de cirurgias. Querem fazer em 3 meses o que não fizeram em 4 anos de governo.

Agora imaginem, se não estamos conseguindo alojar de forma digna e segura nossos pacientes "normais", onde enfiaremos os 6.000 pacientes provenientes deste mutirão demagógico e populista?

Minha solidariedade ao médico capixaba que perdeu as estribeiras na cidade de Cariacica no ES, muitas vezes já tive vontade de fazer o mesmo que ele fez.

Roberto Corrêa Ribeiro de Oliveira

Médico anestesiologista, socorrista e professor universitário

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